Enfim, mais um na multidão

Eu gostaria que as pessoas estivessem como eu estou hoje. Pela primeira vez na minha vida eu posso dizer que me quis. Mas o que mudou em relação à ontem além de nada? O que aconteceu com aquela angústia que me deformava e que já não faz sentido? O que aconteceu com a agonia e a aversão provocada pelo toque?

A flecha pela qual eu fui perseguido nos sonhos de toda minha infância faz muito sentido agora e mostra como o inconsciente domina a construção do ser.

No decorrer da minha infância fui perseguido por um sonho reincidente; onde eu acordava em meio às ruínas de algum Império Ameríndio numa manhã ensolarada e percebia as folhas verdes ao meu redor. Conseguia me ver com o nariz um pouco adunco e a pele desenhada um pouco vermelha. Possuía uma pena amarela nos cabelos; sou um caçador. Um caçador que vai ser caçado:

“Preciso fugir desta flecha que me persegue. Preciso achar uma maneira de me esconder em meio às ruínas. Vou virar aqui e certamente estará tudo solucionado”.

A primeira morte foi muito dolorosa.

Os sonhos reincidiam, mas eram complementados. Eu me tornava mais forte, mais veloz, e a cada sonho fugir da flecha não parecia algo tão terrível. A não ser que eu encontrasse um abismo quase intransponível. Um desafio onde anos passariam até que ele fosse superado:

Seguia perdendo para a flecha; lutando para superá-la. Subi diferentes trilhas fechadas, opressoras, que me machucavam de diferentes maneiras. Mas me tornei tão forte, morte após morte, que cheguei a um lindo Vale.

Seu verde era, lindo, intenso; o sol brilhava como nunca e a brisa tornava a sensação ainda mais suave. Conseguia ver as águas de um límpido riacho. Quando em um pequeno/último suspiro de paz, fui morto pela última vez.

Enquanto me foi imposto uma identidade sexual adversa, considerava que precisava fugir da flecha que me perseguia; e que tinha que me tornar forte para superá-la. Eu ia me tornando forte, aprendendo a esconder de mim aquilo que era parte da minha essência; até que os hormônios manifestaram o que eu menos poderia aceitar. Foram anos lutando contra o bullyng, vencendo barreiras, superando obstáculos e conquistando meu espaço por meio do conhecimento. Sonhos se sucederam.

Com a fortaleza de me ver morrer de diversas formas, por ter que adotar atitudes que não faziam parte do que eu era, me tornei forte. Forte o suficiente para mexer nos espaços que eu havia trancado há muito tempo.

Do interior de uma vida cinza com sabor amargo podia ver um lugar se não tranquilo, já que a flecha estava logo atrás, era respirável. Um lugar que tinha as cores de um recomeçar que fizesse sentido. Onde eu não precisaria inventar uma máscara toda vez que precisasse me relacionar com o mundo. Não precisaria me bater em pedras, ou me arranhar nos galhos das árvores. Eu vi o paraíso no momento da minha morte.

Não sonhei mais; não sonhei como aqueles que foram condenados a esperar dormindo o dia do juízo final.

Na verdade a flecha representa algo positivo, que indica um caminho, que segue, uma reta. Um sinal autoafirmativo de acordo com Jung. Porém eu estava sendo perseguido por essa flecha, que viria matar um Eu que na verdade e no sonho, já estava ferido, disforme e acuado em relação à sociedade.

Eu passei por esse dia. Ontem foi o meu juízo final, quando enfrentei aquele “gênio” que me aprisionava com suas energias e me tornava um autoparasita. Quando pela primeira vez pude me ver sem todas as lentes que a sociedade me forçou a usar todas as vezes que escarnava de mim. Quando depois de despertar do sono eterno, enfrentei Osíris e pude entrar no meu Vale dos Reis particular. Quando renasci e tive a certeza plena do meu capital cultural e social.

Nesse momento entendi que a flecha foi disparada por mim mesmo quando decidi de uma maneira subordinada, fugir do que inconscientemente eu já era. Me escondendo para não extirpar de vez um tumor psicológico que me prendia a uma vida de fuga social. Na verdade me sinto conformado com o fato de ter sido atingido pela flecha; que era a condição para eu entrar no meu jardim e poder cultivá-lo. Mas bem que eu poderia ter virado, pego a flecha e enfiado no meu próprio peito acabando com meu próprio sofrimento.

Na verdade para a grande maioria das pessoas é muito natural estar em sociedade, mas para mim era doloroso. Pensar em sofrer mais uma agressão me tornava arredio, afastando as pessoas de mim. Olhar no espelho e pensar que precisava me esforçar para ser igual era desgastante e chato.

Ainda comemorando esta alteridade comigo mesmo fiz uma reflexão. Não acredito que muitas pessoas devam encarar a vida dessa maneira triste, já que o ser humano está em constante busca por felicidade de acordo com Aristóteles. O que me leva a concluir que estou muito realizado, mesmo sabendo que vão existir momentos onde eu precisarei ler isso, e lembrar tudo o que conquistei por dentro . Estou satisfeito por pertencer ao seleto grupo da maioria que consegue observar suas qualidades e defeitos, convivendo pacificamente com eles. Gozando da alegria de ser mais um na multidão.

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