O Coelho de Pelúcia (Reflexões)

‘Trecho: O Coelho de Pelúcia (Como brinquedos se tornam reais). 

“O que é REAL?” perguntou o Coelho um dia. “Significa ter coisas que zumbem dentro de você e uma manivela saliente?”

“Real não é como você é fabricado”, disse o Cavalo de Pele. “É algo que acontece com você”.

“Quando uma criança o ama por um longo, longo tempo, não apenas para brincar (brinca) com você, mas REALMENTE ama você, então você se torna Real”.

“Isso machuca?”

“Hummmmmm… às vezes”, ele era sempre sincero. “Quando você é Real você não se preocupa em ser machucado”.

“Isso acontece tudo de repente, como quando alguém lhe dá corda ou aos poucos?”

“Isso não acontece tudo de repente… Você se torna (transforma). Demora um longo tempo. Por isso não acontece freqüentemente para as pessoas que se quebram facilmente, ou que têm bordas afiadas, ou que têm que ser guardadas com cuidado”.

“Geralmente, quando você se torna Real, a maior parte de seu cabelo foi (amorosamente) arrancada, e seus olhos caem e você se torna frouxo nas juntas e muito surrado”.

Mas estas coisas não importam no entanto, porque uma vez que você é Real, você não pode ser feio, exceto para pessoas que não compreendem”.

“Eu suponho, você é real?” (Eu suponho que você seja real?) E então ele desejou não ter dito aquilo, porque ele pensou que o Cavalo de Pele poderia ficar sentido. Mas o Cavalo de Pele somente sorriu.

“O Tio do Menino me tornou Real. Isso foi há muitos anos atrás, mas uma vez que você é Real você não pode tornar-se irreal outra vez. Isso dura para sempre.”

Margery Williams, 1922.’

E Eu com isso?!

Lendo esse trecho eu consigo facilmente perceber como ele conversa com a minha vida e me mostra como a desconstrução dos meus preconceitos, a superação das minhas crises, os traumas do meu passado e os desequilíbrios do meu presente, são partes integrantes da construção do meu indivíduo.

Consigo perceber o quanto erro, e que esses erros repercutem nas minhas atitudes futuras e na construção do meu ser. Percebo que com o tempo, não sou mais aquele brinquedo novo, bonito, funcional e que sempre é agradável.

Achando que estou fazendo o certo cometo deslizes que me sujam, afrouxam minhas engrenagens, desbotam as cores dos meus anseios iniciais e trazem marcas que irão se perpetuar por toda a minha vida e nas minhas relações interpessoais. Na mesma medida em que os indivíduos me conhecem plenamente.

Esses desgastes fazem parte de quem eu sou, porém sem respeitar meus próprios ideais, as vezes, eles se mostram em momentos inadequados; onde mais do que nunca eu gostaria de ser novo e não possuir Falhas. Machucados que nem sempre surgiram por amor, mas que serviram para a construção do meu Eu, na medida em que optei por seguir em frente, para garantir que eu seria Real um dia, com base nas minhas próprias experiências.

Pude por experiência própria notar que pessoas que são presas em uma zona de conforto para não se machucar, não conseguem ser Reais; podem até ser lindos objetos decorativos, mas nunca terão a profundidade de uma experiência verdadeira, pois terão medo. Observei, com esses olhos que a terra a de comer haha.., que quem da corda em manivelas e imita o que acha que está em evidência, não está sendo real e pela repetição está fadado ao esquecimento. Percebi que pessoas falsas até podem ser intensas mas são rasas e nunca vão poder concluir o que não começaram. E entendi que a maior parte do ser real está em se permitir errar e aceitar as marcas dos erros cometidos, aprendendo com eles.

Infelizmente se transformar em real é capaz de deixar marcas muito profundas, na medida em que não podemos controlar o impacto das nossas atitudes naqueles com quem convivemos. E que isso muitas vezes é capaz de repercutir em outras pessoas, para quem nunca pretendíamos deixar de ser novos. Porém até nisso existe beleza, pois é assim que nossos amigos conhecem nossas manchas e descosturas. Trazendo para a nossa vida reparos, ou mesmo novas marcas, pois cada um traz consigo uma História. Transformando momentos em verdadeiros laços que começam a surgir, pois com a visualização dos defeitos é que entendemos a beleza que existe por trás deles.

Dessa forma, por um lado, devo infinitas desculpas aos meus amigos que precisam conviver com tantas marcas e dores, que angustiado eu espero a cicatrização. Também peço perdão sincero, por não saber quais são as”bactérias” que essas experiências podem carregar. Mas eu tenho ainda mais a agradecer aos meus amigos pela oportunidade de ser verdadeiro, nas minhas vivências, enquanto minhas marcas me tornam único, especial para mim mesmo e real.

Continuar lendo

Enfim, mais um na multidão

Eu gostaria que as pessoas estivessem como eu estou hoje. Pela primeira vez na minha vida eu posso dizer que me quis. Mas o que mudou em relação à ontem além de nada? O que aconteceu com aquela angústia que me deformava e que já não faz sentido? O que aconteceu com a agonia e a aversão provocada pelo toque?

A flecha pela qual eu fui perseguido nos sonhos de toda minha infância faz muito sentido agora e mostra como o inconsciente domina a construção do ser.

No decorrer da minha infância fui perseguido por um sonho reincidente; onde eu acordava em meio às ruínas de algum Império Ameríndio numa manhã ensolarada e percebia as folhas verdes ao meu redor. Conseguia me ver com o nariz um pouco adunco e a pele desenhada um pouco vermelha. Possuía uma pena amarela nos cabelos; sou um caçador. Um caçador que vai ser caçado:

“Preciso fugir desta flecha que me persegue. Preciso achar uma maneira de me esconder em meio às ruínas. Vou virar aqui e certamente estará tudo solucionado”.

A primeira morte foi muito dolorosa.

Os sonhos reincidiam, mas eram complementados. Eu me tornava mais forte, mais veloz, e a cada sonho fugir da flecha não parecia algo tão terrível. A não ser que eu encontrasse um abismo quase intransponível. Um desafio onde anos passariam até que ele fosse superado:

Seguia perdendo para a flecha; lutando para superá-la. Subi diferentes trilhas fechadas, opressoras, que me machucavam de diferentes maneiras. Mas me tornei tão forte, morte após morte, que cheguei a um lindo Vale.

Seu verde era, lindo, intenso; o sol brilhava como nunca e a brisa tornava a sensação ainda mais suave. Conseguia ver as águas de um límpido riacho. Quando em um pequeno/último suspiro de paz, fui morto pela última vez.

Enquanto me foi imposto uma identidade sexual adversa, considerava que precisava fugir da flecha que me perseguia; e que tinha que me tornar forte para superá-la. Eu ia me tornando forte, aprendendo a esconder de mim aquilo que era parte da minha essência; até que os hormônios manifestaram o que eu menos poderia aceitar. Foram anos lutando contra o bullyng, vencendo barreiras, superando obstáculos e conquistando meu espaço por meio do conhecimento. Sonhos se sucederam.

Com a fortaleza de me ver morrer de diversas formas, por ter que adotar atitudes que não faziam parte do que eu era, me tornei forte. Forte o suficiente para mexer nos espaços que eu havia trancado há muito tempo.

Do interior de uma vida cinza com sabor amargo podia ver um lugar se não tranquilo, já que a flecha estava logo atrás, era respirável. Um lugar que tinha as cores de um recomeçar que fizesse sentido. Onde eu não precisaria inventar uma máscara toda vez que precisasse me relacionar com o mundo. Não precisaria me bater em pedras, ou me arranhar nos galhos das árvores. Eu vi o paraíso no momento da minha morte.

Não sonhei mais; não sonhei como aqueles que foram condenados a esperar dormindo o dia do juízo final.

Na verdade a flecha representa algo positivo, que indica um caminho, que segue, uma reta. Um sinal autoafirmativo de acordo com Jung. Porém eu estava sendo perseguido por essa flecha, que viria matar um Eu que na verdade e no sonho, já estava ferido, disforme e acuado em relação à sociedade.

Eu passei por esse dia. Ontem foi o meu juízo final, quando enfrentei aquele “gênio” que me aprisionava com suas energias e me tornava um autoparasita. Quando pela primeira vez pude me ver sem todas as lentes que a sociedade me forçou a usar todas as vezes que escarnava de mim. Quando depois de despertar do sono eterno, enfrentei Osíris e pude entrar no meu Vale dos Reis particular. Quando renasci e tive a certeza plena do meu capital cultural e social.

Nesse momento entendi que a flecha foi disparada por mim mesmo quando decidi de uma maneira subordinada, fugir do que inconscientemente eu já era. Me escondendo para não extirpar de vez um tumor psicológico que me prendia a uma vida de fuga social. Na verdade me sinto conformado com o fato de ter sido atingido pela flecha; que era a condição para eu entrar no meu jardim e poder cultivá-lo. Mas bem que eu poderia ter virado, pego a flecha e enfiado no meu próprio peito acabando com meu próprio sofrimento.

Na verdade para a grande maioria das pessoas é muito natural estar em sociedade, mas para mim era doloroso. Pensar em sofrer mais uma agressão me tornava arredio, afastando as pessoas de mim. Olhar no espelho e pensar que precisava me esforçar para ser igual era desgastante e chato.

Ainda comemorando esta alteridade comigo mesmo fiz uma reflexão. Não acredito que muitas pessoas devam encarar a vida dessa maneira triste, já que o ser humano está em constante busca por felicidade de acordo com Aristóteles. O que me leva a concluir que estou muito realizado, mesmo sabendo que vão existir momentos onde eu precisarei ler isso, e lembrar tudo o que conquistei por dentro . Estou satisfeito por pertencer ao seleto grupo da maioria que consegue observar suas qualidades e defeitos, convivendo pacificamente com eles. Gozando da alegria de ser mais um na multidão.

Jardins e Relacionamentos

Pessoas são como jardins, cada uma cultiva suas flores e seus tipos de grama, assim como suas ervas daninhas com as quais tem que lidar, nos acostumamos a cuidar do nosso jardim, e procuramos deixá-lo sempre o mais agradável para que os outros se sintam bem ao entrar neles. Alguns jardins trazem paz, outros jardins trazem alegria, mas todos embelezam o mundo à sua maneira.

Quando temos um relacionamento trocamos nossos jardins e isso é um problema, pois não conhecemos as plantas, a rega e o poder das suas ervas daninhas. Sabemos cuidar daquilo que conhecemos, mas nos deparamos com um novo universo. Todo jardim precisa de cuidados, mas que cuidados devemos prestar? Como cultivar as plantas que ali estão? Como saber o que simplesmente não faz parte do jardim? Como cuidar sem retirar uma linda flor que nasce e não cultivar uma erva daninha? Acho que essa é a dúvida de todo casal, porém claro que sempre procuramos cuidar do jardim alheio da melhor maneira possível.

Trazemos novas flores, regamos à nossa maneira. Deveríamos perguntar e conversar sobre o que há de mais importante em nossos jardins pessoais, afinal de contas mesmo com outro cuidando passamos mais tempo nele que qualquer outra pessoa e temos que estar confortáveis. Por isso é necessário muito cuidado. Não descaracterize o jardim do outro, ou quando o parceiro perceber que aquele lugar não faz mais parte dele, ele não hesitará em tomar novamente a administração para si e recultivará seu jardim.

Foto0017

Não mate as flores que já estavam lá e não plante tantas flores diferentes, ou você vai descaracterizar o jardim pelo qual se apaixonou e ele não vai mais exalar o mesmo perfume, nem pousarão nele os mesmos passarinhos. Até que quando menos perceber não estará mais naquele jardim que tanto amava. Estará sozinho novamente cuidando do que se transformou no seu próprio jardim.

Nenhuma paisagem é igual à outra, cada uma tem a sua beleza, sinta que o outro se encanta com o jardim que está construindo. Pergunte quando tiver dúvidas do que plantar, traga novas flores, mas também as receba com alegria, isso é aprendizado. Apenas não cuide tanto do jardim alheio a ponto de esquecer que no final do dia vai voltar para um lugar que também precisa estar tão bonito quanto o lugar que você preparou.